Category Archive: Petróleo

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Chevron, petróleo e migalhas

Os 400 indígenas da tribo indígenas Kitchwa vivem no coração do Parque Nacional Yasuní, no Equador: a mesma zona que a Chevron está prestes à invadir.
A empresa pretende pôr as mãos em 70.000 hectares de floresta, onde foram identificados reservas de petróleo avaliadas 7.2 milhões de Dólares.

Problema: a tribo não concorda.

A comunidade decidiu rejeitar uma oferta da da companhia petrolífera porque preocupadas com os efeitos a longo prazo no território dele.
Recentemente foi descoberto também que o chefe da aldeia, sem autorização, tinha assinado um contracto que dava a luz verde para a exploração. O documento deixa cair todas as ofertas anteriores: a construção de uma nova escola, a assistência sanitária aos habitantes e prevê uma compensação de apenas 40 Dólares por hectare. Mas mais de 80 por cento do indígenas é contrária e pronto para lutar com as armas para salvar a sua própria terra.

O xamã Patricio Jipa admite que haverá confrontos:
Certamente vai acabar em tragédia, só podemos morrer para defender a floresta. Seria melhor a resistência passiva, mas, neste caso, já não é possível. Não vamos começar, vamos tentar detê-los e, depois, aconteça o que tem que acontecer.

O Equador é o único País do mundo a reconhecer a força jurídica da Natureza na sua constituição. Mas a pressão dos interesses económicos fica cada vez mais forte e poucos atenderam ao apelo do governo equatoriano para fornecer apoio financeiro ao parque Yasuni e impedir a exploração de petróleo. No Parque Yasuni também vivem comunidades indígenas nunca entrada em contacto com a civilização, como as tribos dos Tagaeri e dos Taromenane, que lutaram contra os cortadores ilegais de madeira e os missionários com seus zarabatanas para proteger sua floresta e sua cultura.

Migalhas

E a propósito de Chevron.

A empresa liderada por John S. Watson (também membro dos conselhos de administração do American Petroleum Institute, da Caltex, da Dynegy – até 2004-, do National Petroleum Council, do Business Council, do Business Roundtable, do JPMorgan International Council, da American Society of Corporate Executives, dos San Diego Padres e...do Animal Rescue Foundation, porque é pessoa que ama a natureza) foi multada em 1 milhão de Dólares por causa do incêndio do passado 6 de Agosto de 2012 na cidade de Richmond, no norte da Califórnia.

A multa é o máximo possível de acordo com as leis da Califórnia. A Chevron foi considerada culpado de 25 violações da California Division of Occupational Safety.

No Brasil, a Chevron já tinha sido multada em 17 milhões de Dólares por causa do derramamentos de petróleo nas plataformas ao largo da costa do Rio de Janeiro, no campo Frade, de propriedade da mesma Chevron mas operado pela Transocean. Diz nada o nome? Pois, é a mesma empresa da Deepwater Horizon, no Golfo do México.

Em Novermbro de 2011 foram 3.600 os barris de petróleo derramados perto do Rio. E também aqui houve violações das leis de protecção ambiental e dos trabalhadores.
Já em 2012, o Instituto para a Protecção do Ibama havia multado a Chevron em 33 milhões de Reais por danos ambientais e pelo facto de não ter um plano de emergência local concreto e viável.
Ao mesmo tempo estão em curso outros processos com respectivas possíveis (e prováveis) multas.

Dito assim parece muito dinheiro, uma sã lição que deveria fazer reflectir seriamente a empresa.
Mas não é. Aliás, não passam de pormenores.

No quarto semestre de 2012, a Chevron registou um aumento de 41% dos seus negócios, mais ou menos 7.2 biliões de Dólares de receita. Dito de outra forma: em três meses 7.200 milhões de Dólares. Ou 80 milhões por dia.

Lógico, portanto, que 17 milhões de Dólares ou 33 milhões de Reais sejam apenas migalhas.


Ipse dixit.

Fontes: Rainforest News, Rockridge Patch, Reuters, MNN, Grist, No all'Italia Petrolizzata, Wikipedia (versão inglesa)

Previsões de guerra: o Irão


Fazer previsões é uma coisa muito difícil,
especialmente quando dizem respeito ao futuro
Niels Bohr


E pontuais eis que chegam as previsões funestas.
De quem? De quem não tem nada a perder, óbvio.

Falamos de guerra, dum conflito utilizado para resolver duma vez por todas a crise.

Não é a primeira vez que é agitado o fantasma da guerra por parte de quem gere os fios da economia global. E a razão é simples: a guerra é um excelente negócio.
Mesmo um País derrotado num grande conflito pode ressuscitar e tornar-se numa "locomotiva da Europa".

Há também outras razões.
Medida após medida, é claro que a actual situação de crise é destinada a prolongar-se. Nos Estados Unidos a retoma é muito fraca, a Europa está em recessão, até os Brics não crescem como antes. A impressão é que não haja nada mais para recolher neste prato. Então eis a ideia: partimos a loiça e vamos mudar de prato.

Previsão ou pio desejo? Não sabemos. Mas é preocupante o facto destas pessoas serem as mesmas que vivem e operam próximas dos centros de poderes. Ou serem elas mesmas o poder.

Larry Edelson, economista normalmente hospede nas página de Bloomberg, Reuters, CNBC, The New York Times, New York Sun e Marketwatch, escreveu um e-mail aos seus assinantes, cujo título é ara assinantes intitulado "O que os Ciclos de Guerra dizem para 2013":
Desde a década dos anos oitenta, estudei os chamados "ciclos de guerra ": os ritmos naturais que predispõem as sociedades para descer no caos, o ódio, numa guerra civil ou até internacional.

Certamente não sou a primeira pessoa a observar esses modelos tão únicos na história. Houve muitos antes de mim, em particular, Raymond Wheeler, que publicou a crono-história da guerra de maior autoridade de todos os tempos, documentada com dados ao longo dum período de 2.600 anos.

No entanto, há poucas pessoas que estão dispostas a discutir a questão neste momento. E com base no que vejo, as implicações podem ser absolutamente enorme em 2013.
Interessante a expressão "ritmos naturais". Dito assim, parece que a guerra existe além da vontade humana, quase um componente óbvia da Natureza. Não há nada para fazer: cedo ou tarde deve haver uma guerra. Ámen.

Será então inevitável acabar a deterioração duma sociedade (e a nossa sociedade está abundantemente deteriorada) com um conflito, até de proporções "internacionais"? A História diz que não, não é assim.
Mas dizer isso não assusta ninguém.
Por isso: em frente.

O ex-analista do Goldman Sachs, Charles Nenner (que lançou alguns avisos muito precisos entre os seus clientes acerca de hedge funds e bancos) diz que haverá "um grande guerra que vai começar na passagem entre 2012 e 2013" e que irá levar Dow Jones para 5.000 pontos.

Horror e tragédia: o Dow Jones a 5.000 pontos? Mas é uma catástrofe! Ah, sim, depois haveria as bombas, a violência, os mortos, mas enfim, a Bolsa é a Bolsa. Em qualquer caso, cuidado com o 31 de Dezembro: não sempre os fogos de artifício são o que parecem.

Pergunta: porquê? Porque estes gurus estão a prever uma guerra? E nem pequena...

Em parte porque, como afirmado, muitas pessoas influentes estão convencidas de que a guerra é boa para a economia. O que não é verdade: é boa para alguns (poucos) durante o conflito, enquanto a sociedade pode ver o crescimento (que existe após um conflito e que não pode ser negado) só após sofrimentos e privações terríveis. O jogo vale a pena?

Jim Rogers (co-fundador do Quantum Fund com o simpático George Soros e apoiante de Ron Paul na corrida para as Presidenciais americanas) afirma:
A continuação dos resgates na Europa poderá vir a desencadear uma nova guerra mundial [...] Adicionamos a dívida, a situação agrava-se e, eventualmente, entra simplesmente em colapso. Então, todos vão procurar os bodes expiatórios. Os políticos culpam os estrangeiros, e estamos numa guerra qualquer.
Depois temos a explicação de Marc Faber, o qual afirma que o governo dos EUA vai iniciar novas guerras em resposta à crise económica:
A próxima coisa que o governo vai fazer para distrair a atenção das pessoas em más condições económicas será começar uma guerra em algum lugar. [...] Se a economia mundial não recuperar, normalmente as pessoas vão para a guerra.
Problema: os Estados Unidos não têm dinheiro nesta altura, e as guerras custam. Muito. Foi isso que provavelmente salvou o Irão até agora (israel sonha um ataque de olhos abertos) e a situação entretanto não melhorou.
Iniciar um conflito agora significaria desviar muitos dos fundos federais que agora são indispensáveis até para o normal funcionamento dos Estados da União e que contribuem para a sobrevivência de milhões de desempregados. Para justificar uma tal medida seria preciso um acontecimento "forte", mas de novos 9/11 por enquanto nem a sombra. Isso ou os jogos de poder duma potente lobby, pois afinal os sinais ou acontecem ou criam-se.

Faber acredita que os Estados Unidos, a China e a Rússia podem começar uma guerra por causa do petróleo do Médio Oriente. E o humilde blogueiro permite-se discordar. Não que não haverá no futuro uma guerra por causa do petróleo (e do gás, e mais à frente ainda pela água...), mas não agora, em particular no ano em que os Estados Unidos atingirão o pico de produção.

A Rússia tem petróleo e sobretudo gás em abundância. Fica descansada.
E a China? A China não tem petróleo e sofre por causa disso (falta de gasóleo em algumas províncias), é verdade. Mas a China já deu prova de saber resolver os seus problemas não com a guerra mas com outros meios. Quem desencadeou ou entrou em 10 conflitos (sem contar os acontecimentos menores) nos últimos 150 anos não foi Pequim.

Se guerra será, não será para satisfazer a procura imediata de petróleo, o custo não justificaria isso.
Será para tentar resolver uma situação económica aparentemente sem saída, para ocupar novos mercados potencias, para desenvolver o antigo projecto de domínio na Eurásia e para satisfazer a sede de vingança dum dos aliados de Washington.

Nem é preciso explicar qual deles, pois não?

Irão: embargo total

No silencio absoluto dos medias ocidentais, começou o embargo contra o Irão. Há 48 horas nada sai e nada entra legalmente do País do Médio Oriente, nem a comida.

As eleições americanas acabaram, o Prémio Nobel a Paz Obama ganhou, luz verde para a tentativa de estrangular um País com 75 milhões de habitantes. Os bancos franceses bloquearam todas as contas das empresas que mantêm relacionamentos de importação ou exportação com o Irão. Após seis anos de embargo, pela primeira vez todas as medidas possíveis são aplicadas.

Se Tel Avive quer sangue, Washington ladra e mostra os dentes.
E a guerra começou há 48 horas.

Pode demorar: os sinais da Segunda Guerra Mundial estavam claros muitos antes da invasão da Polónia, é preciso conceder o tempo para que as coisas amadureçam. Depois sim, na altura "certa" haverá a guerra espectacular, feita de bombas pseudo-inteligentes e enviados da CNN. Mas podem passar meses ou até anos.

Por enquanto criam-se as condições e afiam-se as armas: israel já testou a aviação na Somália e nestes dias experimenta o sistema anti-mísseis Iron Dome. Adquiriu também vários Boeing 707 para que possam ser convertidos em aviões de refornecimento.

A Nato fez um bom trabalho e israel agradece: a Líbia está de rastos, o Egipto é empenhado na travessia do deserto, a Síria em pedaços, o Iraque já não existe, o Líbano tinha sido arrumado há muito. As possíveis ameaças contra Jerusalém foram sistematicamente eliminadas com a Primavera Árabe. Sobra a Jordânia, demasiado pequena para levantar a voz, e o Irão, o alvo.

Mas não é simples: há Moscovo e Pequim atrás de Teheran.
Concentrar-se no Irão significaria deixar pouco protegida a frente do Oceano Pacífico, onde a China avança cada vez mais e onde Washington investiu muito nos últimos tempos (mais do que no Médio Oriente). Porque os Estados Unidos realmente têm problemas de dinheiro e, apesar das pressões israelitas, os cofres estão vazios.

Não seria a primeira vez que Washington entra num conflito estando à beira da bancarrota (foi assim na Segunda Guerra Mundial), e israel afinal pouco está interessada na situação interna dos Americanos. É, de facto, um jogo muito complicado.

Mas o sinal foi lançado, disso não há dúvida: o embargo total contra o Irão é um facto, não uma intenção. Agora é só esperar para as eleições de Janeiro em israel e observar as próximas jogadas.


Ipse dixit.

Fonte: Washington's Blog, Business Insider, Russian Today, Petrolítico

O petróleo do Golfo

No imaginário colectivo, "árabes" significa, entre outras coisas, "petróleo", sobretudo quando o assunto forem os Países do Médio Oriente: grandes extensões de areia no meio das quais surgem as torres para a extracção do outro negro.

É mesmo assim, na Península de Arábia há petróleo. Mas os proventos, como sabemos, não são partilhados pelas populações locais: o negócio está nas mãos dum punhado de famílias que controlam o petróleo e os Países nos quais é extraído.

Pergunta: mas quem são estas pessoas?
Antes de mais: esqueçam Wikipedia ou outras fontes "oficiais", aí é possível encontrar apenas a história das dinastias e pouco mais. Para descobrir algo mais é preciso ir pouco mais em profundidade: porque além da "linhagem", o que interessa é saber quem realmente mexe os fios do maior negócio do planeta, aquele que literalmente faz funcionar a nossa sociedade.

As famílias em questão operam em seis Países, que fazem parte do Gulf Cooperation Council (GCC), o Conselho de Cooperação do Golfo: Bahrain, Kuwait, Oman, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Os Países do GCC controlam 42% das reservas mundiais de petróleo. Os sauditas têm 261 biliões de barris, mais que o dobro de qualquer outro país, o 26% das reservas mundiais conhecidas. O reino possui mais de 60 campos de petróleo (e gás também) que produzem 10 milhões de barris por dia. O enorme reservatório de Ghawar, por exemplo, é de longe o maior da Terra.
Após o Iraque, a terceira maior reserva do mundo comprovada pertence aos Emirados Árabes Unidos: 97,8 biliões de barris. O Kuwait é o quarto, com 96,5 biliões. Os outros Países do GCC contribuem com mais alguns biliões.

Culturalmente, no mundo árabe, o GCC conseguiu espalhar o poder dos centros mais tradicionalistas e nacionalistas do Médio Oriente Médio, reforçando o poder das monarquias relativamente jovens dos Estados do Golfo. Este novo bloco de nações assinou o acordo económico do GCC, com a liberalização de suas economias para permitir mais investimentos directos por parte dos bancos e das sociedades ocidentais e a criação de uma zona de comércio livre entre os membros.
Como consequência, o Bahrein tornou-se um grande centro bancário offshore.

Trabalhadores estrangeiros pobres, originários dos Países asiáticos como as Filipinas e o Bangladesh, foram incentivados a transferir-se para os Países do GCC, fornecendo mão de obra barata para a elite do petróleo. Foi instituído um mercado comum e as políticas do petróleo foram harmonizadas.

Tudo aconteceu em tempos relativamente recentes e rápidos também: o GCC foi fundado em Maio de 1981, enquanto o Acordo Económico Unificado foi assinado em Dezembro do mesmo ano.

Os resultados estão à vista: segundo o Wall Street Journal, as principais moedas do mundo não são a Libra Esterlina, o Dólar dos EUA ou o Franco suíço. Muito mais importantes são o Dinar do Kuwait (0,30 Dinar = 1 Dólar dos EUA), o Dinar do Bahrein (0,37 Dinar = 1 Dólar EUA) e da Lira de Malta (0,46 Lira = 1 Dólar EUA).

Malta? Sim, o pequeno estado foi fundado pelos Cavaleiros de Malta, católicos, com a ajuda do Vaticano e representa hoje um conjunto de crimes organizados com a presencia da CIA no Mediterrâneo. Mas esta é outra história, continuemos a seguir o rasto do petróleo.

Para compreender plenamente o significado da formação do GCC, deve-se apreciar a história da colonização feudal por parte da elite britânica que levou à existência dos emirados que compõem hoje o GCC. Uma história de dominação familiar nesses Países do Golfo Pérsico tornou estes emirados maduros para um pacto de segurança petróleo-armas, como aquele que foi criado em 1981.
Como o ministro do petróleo do Qatar disse, em termos inequívocos:
O mundo industrial terá que proteger o petróleo. Acreditamos ser esta uma adequada troca de interesses e benefícios.
E foi mesmo isso que aconteceu até hoje.

Em 1776, a British East India Company estabeleceu uma sede naquele que é agora Kuwait. Quando os membros do clã Hachemita do Kuwait ajudaram os turcos otomanos na repressão das revoltas no sul do Iraque, o xeque da tribo Muntafiq deu ao clã alguns bosques em al-Fao e al-Sufiyah, no sul do Iraque. Sucessivamente, o Kuwait (aí ficam os bosques) tornou-se um ponto altamente estratégico, sobretudo aos olhos dos britânicos na protecção das rotas marítimas.

Em 1900, os britânicos assinaram um acordo com os Hachemita e o Kuwait deixou de pertencer ao Iraque, tornando-se um protectorado britânico. A grande maioria das pessoas que viviam no que é hoje o Kuwait não concordava com o projecto britânico, mas estes são pormenores.

Em 1914, no auge da Primeira Guerra Mundial, os Britânicos prometeram ao clã o reconhecimento do membro mais importante entre eles, al-Sabah, como rei da coroa do novo País em troca da guerra contra as tropas do Império Otomano na Mesopotâmia, no actual Iraque.  Desde então, o clã Hachemita governa no Kuwait.

É do mesmo período e nos mesmos moldes a formação da Arábia Saudita, governada por Ibn Saud, enquanto os Emirados Árabes Unidos e o Oman tornaram-se protectorado britânicos.

Em 1922, o Tratado de Jeddah deu à Arábia Saudita a independência da Grã-Bretanha, apesar de Londres ainda exercer uma considerável influência no País. No decorrer de 1920, com a ajuda das tropas britânicas, Ibn Saud conseguiu entrar na posse de outros territórios dos Otomanos, quando ocupou Riyadh e as cidades sagradas de Meca e Medina.

Na mesma altura, Grã-Bretanha e França assinaram o tratado de San Remo, dividindo as concessões petrolíferas do Médio Oriente Médio entre os dois países.

Dentro de duas semanas, os Estados Unidos também entraram no jogo do petróleo do Médio oriente: os pequenos produtores independentes norte-americanos, como a Sinclair, opuseram-se a esta política, reclamando que iria favorecer os interesses petrolíferos dos Rockefellers. Mas estes são pormenores: os gigantes americanos Exxon, Mobil, Chevron, Texaco e Gulf (a descendência da Standard Oil Trust de John D. Rockefeller) juntaram-se a British Petroleum, Royal Dutch/Shell (propriedade da Casa Real de Orange, Holanda, e da família Rothschild) e Compagnie des Pétroles para a divisão dos campos petrolíferos do Médio Oriente.

Como resultado, a Companhia de Petróleo do Iraque (IPC) e o Consórcio Iraniano seria dominado pelas empresas europeias, enquanto a Aramco (a companhia nacional) da Arábia Saudita seria de propriedade dos Estados Unidos. Isso enquanto os jovens protectorados britânicos foram explorados através de diferentes combinações entre os participantes ocidentais.

A subsidiária da IPC, a Petroleum Development Trucial Coast, começou a perfurar o que são agora os Emirados Árabes Unidos já em 1935. Hoje, a indústria do petróleo dos Emirados Árabes Unidos é dividida entre ADCO (que opera também no Iraque) e ADMA:

ADCO
- 24% da BP-Amoco
- 9,5% da Royal Dutch/Shell
- 9,5% da Exxon-Mobil.

ADMA
- 14,67% da BP-Amoco
- 13,33% da ex Compagnie des Pétroles, agora Total.

A Esso Trading Company (sempre Emirados Árabes Unidos) é 100% detida pela Exxon-Mobil.
A Dubai Oil é 55% de propriedade da Conoco (Estados Unidos, propriedade da Philips), que também é proprietária de 35% da Dubai Marines Area, da qual a BP-Amoco tem uma quota de 33,33%. Hoje a maior parte do petróleo do Emirados vai para o Japão.

Chevron e Texaco formaram a Bahrain Petroleum Company (BPC) e controlam a produção do pequeno País.
No Qatar, a Exxon-Mobil domina o sector do gás natural; tem uma grande quota de Qatargas, que actualmente fornece o Japão com 6 milhões de toneladas de gás natural por ano. É também parceiro (30%) da enorme exploração de Ras Laffan, que produz 10 milhões de toneladas de gás natural por ano.

A BP fundou com a Gulf, no Kuwait, a Kuwait Oil Company, que agora vende petróleo descontado aos antigos donos da BP-Amoco e Chevron-Texaco (Chevron adquiriu a Gulf em 1981).

Em 1949, as empresas americanas controlavam 42% das reservas de petróleo no Médio Oriente, os anglo-holandeses tinham 52%, o restante 8% era de propriedade da Total-Fina-Elf e outras empresas menores.

A influência inglesa e americana na área continua forte: o Oman está particularmente próximo de Londres, com mercenários ingleses que protegem as famílias dominantes em todos os seis estados do GCC. Estes emirados são governados por monarquias familiares seleccionadas pelos colonialistas anglo-americanos, para que seja possível realizar o de dominação do petróleo do Médio Oriente Médio e das rotas marítimas da região.

As seis famílias governantes do GCC estão interligadas. E não poderia ser de forma diferente: afinal são uma "invenção" de figuras que operam na sombra. Os nomes destas figuras? Não é precisa muita fantasia: Rockefeller e  Rothschild dizem alguma coisa?

É um monopólio que tem como objectivo o "carburante do mundo" e por isso deve ser defendido com qualquer meio. Quem tentar contraria este estados de coisas deve ser eliminado. E eis que nesta óptica começa a fazer sentido, por exemplo, a eliminação de personagens como o Coronel Khadafi.
Mas esta também é outra história.
Ou talvez não.


Ipse dixit.

Fontes: CounterPsyOps

Sangue, dinheiro & petróleo.

A Suíça mobiliza o exercito? Ahe? E nós falamos do Sudão.

No passado 9 de Julho de 2011, o Sudão do Sul tornou-se a 193ª nação do mundo. Grande festa, celebrações, espectáculos pirotécnicos. No Sudão, entendo, aqui não muito.
Menos de uma semana depois, nova vaga de violência com choques em Kordofan do Sul, uma área de fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul, controlada pelo Sudão e rica em petróleo. Petróleo, pois. E onde houver petróleo, há coisas sujas. Como os Rothschild.

Os Rothschild no Sudão? Vamos ver.

Durante décadas, as agências de inteligence ocidentais apoiaram o Exercito de Libertação do Povo do Sudão (SPLA), numa tentativa de entregar a parte do sul do Sudão aos quatro cavaleiros do petróleo. Não é um mero acaso se a região tem 75% das reservas petrolíferas de todo o Sudão.
Aquela que tem sido a mais longa guerra civil na África, finalmente terminou quando o presidente Omar Hassan al-Bashir, sob pressão internacional, entregou a parte sul do seu País aos vampiros do FMI / Banco Mundial, depois de um conflito que deixou no terreno mais de 2 milhões de mortes.

Alguns dias depois ter-se declarado uma nação soberana, a empresa estatal de petróleo do Sudão do Sul, o Nilepet, formou uma joint venture com a Glencore International Plc. para comercializar o seu petróleo. E quem controla a Glencore International? Exacto: os Rothschilds. A joint venture tem o nome de PetroNile, 51 por cento da qual é controlada pela Nilepet e 49 por cento pela Glencore.

O novo presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir Mayardit, assinou uma lei que estabelece formalmente o Banco Central do Sudão do Sul. O Sudão é um dos cinco Países (com Cuba, Coreia do Norte, Síria e Irão) nos quais o banco central não está sob o controle das oito famílias de banqueiros lideradas pelos Rothschilds. Portanto, não é coincidência o facto da moeda do novo País chamar-se "Libra".

Já em 1993, o presidente sudanês al-Bashir tinha acusado a Arábia Saudita de fornecer armas aos rebeldes do SPLA de Johnny Garang. O Mossad de israel também forneceu o SPLA por anos através do Quénia, com a aprovação da CIA.

Em 1996, a administração Clinton anunciou que a ajuda militar para a Etiópia, Eritreia e Uganda deveria ser utilizado para ajudar o SPLA numa ofensiva contra Cartum, a capital do Sudão. Quando este esforço sangrento falhou, as oito famílias começaram a armar os rebeldes do Chad.
O Chad? Pois.

Este tem sido um País importante para a produção petrolífera de Exxon-Mobil e Chevron-Texaco na África do Norte da África. Além disso, serviu de plataforma militar para operações de desestabilização na área: os rebeldes do Chad tentaram derrubar o presidente da Líbia, Muammar Khadafi, na década dos anos '90 e, sempre com os financiamentos ocidentais, apoiaram as manobras do JEM (Justice and Equality Movement), o movimento separatista do Sudão do Sul que lançou ataques na região do Darfur, criando uma profunda crise entre os povos refugiados na zona.

Os meios de comunicação ocidentais, claro está, culparam do conflito no Darfur só o governo sudanês e a idiocrazia liberal aceitou esta versão dos factos, tal como tinha acontecido antes na ex-Jugoslávia. Em Março de 2009, o Tribunal Penal Internacional (TPI) acusou o presidente sudanês, al-Bashir por crimes de guerra, nem uma palavra acerca do JEM, dos terroristas do Chad ou dos financiamentos ocidentais.

Entretanto, em Agosto de 2006, o presidente do Chad, Idriss Deby, tinha mudado de ideias pedindo que o seu País ficasse com 60% da produção nacional de petróleo, farto de receber as migalhas das empresas estrangeiras que dirigiam a indústria. Acusou a Chevron e a Petronas de não pagar os impostos, para um total de 486,2 milhões Dólares.

Caso esquisito, em 2009 o presidente Deby entrou na classificação dos piores ditadores do mundo segundo imprensa dos Estados Unidos.
Sic transit gloria mundi, assim passa a gloria do mundo.

Em 2008, o presidente sudanês al-Bashir participou nos festejos pela reeleição de Deby, marcando assim a retoma das relações entre os dois Países e o fim do conflito no Darfur. Mas al-Bashir ainda estava sentado em cima dos enormes depósitos de petróleo, e as oito famílias da Big Oil conceberam o plano para a secessão do Sudão do Sul: exausto pelos constantes ataques, al-Bashir foi forçado ao acordo sobre a divisão do País.

A violência que explodiu recentemente na região de confim do Kordofan, parece que o SPLA e os seus patrocinadores Glencore/Rothschild não tencionem contentar-se com os campos petrolíferos do Sul. É que no Sudão há ainda muito petróleo e muito sangue para derramar.

Empresas simpáticas: a Glencore

Algumas notas acerca da Glencore.
Este é um nome pouco conhecido ao grande público mas na verdade é uma das mais importantes empresas mundiais.
Reza Wikipedia:
Glencore International AG é uma empresa mineradora da Suíça, sediada em Barr. Fundada pelo israelo-belga-espanhol Marc Rich, trabalha também com metais, produtos agrícolas e energia. O Patrinômio é de 145 bilhões de dólares.
A Glencore é portanto uma multinacional anglo-suíça sediada em Baar (Suíça) e registada em Saint Helier, New Jersey (EUA): é nada mais nada menos que a mais importante empresa que comercia em commodities, dado que detém 60% do mercado do zinco, 50% daquele do cobre, 9% do cereais, 3% do petróleo.   

Trabalha directamente ou com subsidiárias nos seguintes Países: Estados Unidos, Austrália, Jamaica, Colômbia, Peru, Bolívia, Argentina, Italia, Suécia, Irlanda, Zâmbia, África do Sul, Congo, Rússia, Cazaquistão, Filipinas. E, naturalmente, Sudão do Sul.

No curriculum da empresa, realce para

Manipulações financeiras e contabilísticas
Cinco organizações não-governamentais apresentaram uma queixa junto da OCDE contra uma filial da Glencore pelo facto duma mina que possui no Zâmbia não pagar os imposto sobre os seus lucros, com acusações de manipulações financeiras e contabilisticas realizadas pela subsidiária Cobre Mopani Minas Plc com o fim de evitar a tributação na Zâmbia. Em 2011 o consultor Grant Thornton descobriu que a evasão fiscal da Glencore na Zâmbia custava ao governo local centenas de milhões de Dólares em receitas perdidas. As minas Mopani são controladas através das Ilhas Virgens Britânicas, um offshore.

Relações com Países hostis
Rádio ABC informou que a Glencore foi acusada de transacções ilegais com Países hostis: ao tempo do apartheid com a África do Sul, com a URSS, mais recentemente com o Iraque de Saddam Hussein, com o Irão. Mais especificamente, a Glencore foi acusada de ter pago 3.222.780 de Dólares como meio para facilitar a obtenção de petróleo no curso do programa Food for Oil da ONU no Iraque.

Investimentos na Colômbia
A televisão pública suíça (TSR) relatou em 2006 as alegações de corrupção e graves violações dos direitos humanos levantadas contra a subsidiária colombiana da Glencore, a Cerrejón. O presidente do sindicato local, Francisco Ramirez, relatou as expropriações forçadas e as evacuações de aldeias inteiras, com o fim de permitir a expansão da mina, com a cumplicidade de autoridades colombianas. De acordo com a TSR, um representante dos índios Wayuu também acusou as unidades paramilitares e militares colombiana, incluindo os responsáveis ??pela segurança da Cerrejón mineração, de "massacre".

Uma investigação da BBC, em 2012, apresentou documentos que mostram como a empresa havia pago assassinos na Colômbia.

Investimentos no Equador
No Equador, o actual governo tentou reduzir o papel dos intermediários, como a Glencore, nos negócios com a petrolífera estatal Petroecuador, devido a questões sobre a transparência.

Investimentos em Zâmbia
Investigações na Zâmbia, pois as autoridades locais acreditam que a poluição das minas da Glencore estão a causar a chuva ácida e os problemas de saúde numa área onde 5 milhões de pessoas residem.

Investimentos na República Democrática do Congo
A refinaria da subsidiária Luilu utiliza ácido para extrair o cobre. Ao longo de três anos após ter assumido o controlo da mina, a empresa continuou a despejar o ácido resíduos num rio próximo. O presidente-executivo, Ivan Glasenberg, foi entrevistado pelo jornalista John Sweeney:
Era impossível remediar de forma mais rápida.
E se era impossível, era mesmo impossível.
A empresa está também sob investigação por causa de falhas na transparência das operações que levaram à concessão da exploração (corrupção de elementos do governo local).

Pois é, a Glencore não brinca em serviço.


Ipse dixit.

Fontes: Aurora, Wikipedia (versão portuguesa), Wikipedia (versão inglesa), ECCJ, The Guardian, Crikey, ABC, The Times, RTS, Reuters, BBC, The Wall Street Journal.

Ser ou não ser Peak Oil…

Mas afinal há petróleo ou não?

Ugo Bardi é o presidente da ASPO Italia, filial da ASPO (Association for the Study of Peak Oil and Gas), associação formada por cientistas e pesquisadores universitários que analisam o Oil Peak, o suposto "pico do petróleo". Na prática, a função deles é avisar: "Olha que acaba, olha que já há pouco...".

Bardi cita um artigo de George Monbiot, o qual escreveu nos últimos tempos:
Estávamos errados acerca do pico petrolífero. Há o suficiente para fritar todos.
Então? O petróleo está para acabar ou não?
Bardi explica:
Monbiot está errado acerca do pico do petróleo, mas está certo na conclusão final: há suficiente combustíveis fosseis para fritar todos.
No blog já falámos várias vezes do problema do Peak Oil e a conclusão pode ser a seguinte: ninguém sabe ao certo o que se passa. Há cientistas segundo os quais o pico petrolífero já foi ultrapassado, outros dizem que não, fica pertinho mas ainda falta um pouco.

Não é uma questão secundária: toda a nossa sociedade está baseada na energia, sem energia o nosso mundo ficaria de avesso em tempos rapidíssimos. Pensem o que acontece quando faltar a luz em casa: nada de televisão, nada de rádio, o computador não funciona, o frigorífico deixa de arrefecer, quem tiver um fogão eléctrico nem um ovo frito pode preparar. E isso apenas na nossa casa: multipliquem isso vezes todas as casas da vossa região, as empresas, os serviços, os transportes; e a seguir tentem imaginar isso numa óptica global.

Assustador, sobretudo tendo em conta que as fontes energéticas são poucos diversificadas: na prática dependemos amplamente do petróleo e se este acabasse seriam problemas. Grandes problemas.

Sendo esta uma questão vital, lógico que apareçam formações de fanáticos para defender uma ou outra posição. Vamos portanto ver quais as posições das partes, na esperança que seja possível ter uma ideia mais precisa (e digo já que a resposta é "Não, não temos uma ideia mais precisa").

O que diz Monbiot

Monbiot, pesquisador, jornalista e ambientalista, faz o ponto da situação. O pico petrolífero, a altura de máxima produção depois da qual seria cada vez menos o petróleo disponível, era esperado para o ano 1995 (hipótese do cientista MK Hubbert), depois para 2004 (Kenneth Deffeyes), para 2012 (Colin Campbell). Em 2004 o magnate texano do petróleo T-Boone Pickens afirmava "Nunca mais será possível extrais mais de 82 milhões de barris de combustíveis líquidos", isso enquanto em Maio de 2012 a produção alcançou 91 milhões.

Um relatório do especialista Leonardo Maugeri, publicado pela Harvard University, fornece evidências conclusivas de que começou um novo boom de petróleo. As contrações na oferta nos últimos dez anos tinham a ver mais com questões de dinheiro e de geologia: a queda nos preços antes de 2003 havia desencorajado os investidores para desenvolver novas explorações. Mas os preços elevados dos últimos anos mudaram esse quadro.

A análise de Maugeri (em 23 Países produtores) indicam que a oferta mundial de petróleo até 2020 vai aumentar em 17 milhões de barris por dia (chegando ao 110 milhões). De acordo com Maugeri, este é "o maior aumento potencial na produção de petróleo desde os anos '80."

Os investimentos necessários para que este boom aconteça dependem do preço do petróleo no longo prazo, mínimo 70 Dólares por barril (actualmente o Brent é vendido por 95 Dólares). Nesta altura, o dinheiro está a fluir no sector do crude, nos últimos dois anos foram gastos um trilião de Dólares.

O País que tem proporcionado o maior aumento na produção é o Iraque, onde muitas empresas multinacionais estão a investir dinheiro. Isso caso não tivesse ficado clara a razão das várias Desert Storm...

Mas o que é mais surpreendente é o que se passa nos Estados Unidos.
Do Pico de Hubbert nem a sombra: o investimento nos EUA ficará concentrado no petróleo não convencional, especialmente óleo de xisto ( shale oil, que não deve ser confundido com as oil shales, as areias betuminosas). O óleo de xisto é um petróleo bruto de alta qualidade aprisionado nas rochas e sabemos agora que existem enormes depósitos nos Estados Unidos: estima-se que o xisto Bakken, no Dakota do Norte, contem tanto petróleo quanto na Arábia Saudita.

E este é apenas um das vinte formações semelhantes que existem sempre nos Estados Unidos. A extração do xisto betuminoso requer perfuração horizontal e fracturamento hidráulico (o fracking): uma combinação de preços elevados e de avanços tecnológicos tornaram estas técnicas economicamente viáveis. A produção no Dakota do Norte já aumentou de 100.000 barris por dia em para 550.000 barris em Janeiro do ano passado.
Conclui Monbiot:
Há muito petróleo no solo, o suficiente para fritar tudo e não há meios adequados para impedir que os governos e as indústrias de extrai-lo. Com o colapso do processo multilateral no mês passado no Rio de Janeiro, são frustrados décadas de esforço para uma persuasão moral que possa evitar um desastre ambiental. A Nação mais poderosa do mundo volta a ser uma Nação petrolífera, e se a transformação política dos seus estados vizinhos sugerir algo, temos a certeza que os resultados não vão ser agradáveis.
O que diz Bardi

O ASPO faz parte da categoria "fanáticos do fim": petróleo há, mas é pouco e em breve nem uma gota.
E Bardi, o presidente da ASPO Italia e professor de química do Departamento de Química da Universidade de Florença, responde directamente ao artigo de Monbiot.

Confirma: que a ASPO tem razão, o pico está aí e Monbiot está errado: primeiro, porque dá muito crédito a recentes estudos bastante optimistas (e até mesmo mal interpretados, pois se lidos com cuidado os dados desses estudos não são tão optimistas).
Depois, o verdadeiro erro feito por Monbiot foi ter dado uma importância excessiva ao Peak Oil na perspectiva da mudança climática.

Até agora, os caprichos da produção do petróleo têm influenciado grandemente as emissões dos gases de efeito estufa. Agora, mesmo que a produção de petróleo bruto parasse durante vários anos, as emissões de dióxido de carbono continuariam a aumentar.

Isto é o que é esperado: o petróleo é apenas uma das fontes do CO2 em excesso na atmosfera e o aumento do custo da extracção está a empurrar a indústria para a utilização de combustíveis sujos. Em outras palavras, estamos a observar uma tendência para a utilização de combustíveis que liberam mais CO2.

Areias e xistos betuminosos, óleos pesados ??e similares, são todo petróleo mais sujo. O carvão é ainda pior e é o principal recurso energético do mundo. Sem mencionar as emissões de metano a partir de fracking: o metano é um gás com efeito estufa muito mais potente que o dióxido de carbono.

Então, por que deveríamos esperar que o pico do petróleo faça a diferença? Paradoxalmente, se o pico do petróleo fosse atingido amanhã, veríamos um aumento das emissões de CO2 e isso causaria um maior uso de carvão, areias petrolíferas e outros poluentes. É verdade que o declínio da eficiência energética dos combustíveis fósseis irá causar um declínio geral nas emissões de gases de efeito estufa, mas não devemos esperar estar tão perto: e haverá uma consequência imediata para o pico do petróleo.

Se insistirmos na produção de combustíveis fósseis, corremos o risco de modificar irreversivelmente o clima, de ir além do "ponto de não retorno", se é que já não passou. Se o pico do petróleo era suposto ter efeitos sobre o clima, isso deveria ter acontecido há 20 anos, quando a concentração de CO2 foi de cerca de 350ppm, que é considerado o limite além do qual as mudanças climáticas são irreversíveis. Agora, com 440ppm e em aumento, o pico do petróleo não é suficiente para deter o aquecimento global.

George Monbiot está errado acerca do pico do petróleo, mas está certo quanto à sua consideração final, é preciso apenas modificar-la um pouco: pico do petróleo ou não, existem suficientes combustíveis fósseis para fritar todo mundo.

O que digo eu, que nada percebo do assunto

Em primeiro lugar, a resposta de Bardi não faz muito sentido: Monbiot traz dados acerca da extracção e da sua potencialidade, Bardi fala de aquecimento global. Não é a mesma coisa, parece uma conversa entre surdos. E isso pode significar uma coisa: um grande embaraço do ASPO e de todos aqueles que defendem o Peak Oil, pois não conseguem justificar o aumento da produção de petróleo.

A seguir. A imagem clássica do poço petrolífero está a mudar: já não há uma preta torre metálica no deserto, hoje falamos de fracking, de areias e xistos betuminosos, e isso deve significar alguma coisa.
Significa, provavelmente, que o petróleo "fácil" está a acabar: não chega fazer um buraco para começar a recolher, é preciso muito mais do que isso. É precisa tecnologia de ponta, extremamente dispendiosa.

Não é por acaso que as maiores casas automobilísticas estão a promover cada vez mais os veículos eléctricos (caros, com prestações ridículas e nem por isso "amigos do ambiente"): o petróleo não vai acabar em breve, simplesmente será mais caro extrai-lo. E, por consequência, os preços nas bombas de gasolina irão aumentar.

Isso implica também um aspecto ambiental que não pode ser ignorado. Aquecimento global ou não, existem provas suficiente de que o fracking é uma técnica devastadora, não está excluído que possa até estar na origem de movimentações telúricas.

Provavelmente o Peak Oil clássico (o fim do petróleo) ainda está longe e a ASPO está profundamente errada, tal como todos aqueles que defenderam a ideia ao longo das décadas.

Seria preciso introduzir um novo conceito, o conceito do "Pico Petrolífero Ambiental": um limite além do qual a extracção do petróleo comporta riscos ambientais que não podem ser compensados pelos benefícios (inegáveis) da matéria prima. E o termo "ambiental" deveria ser entendido de forma muito ampla:  inclui, por exemplo, as guerras que os Países travam para obter o petróleo (caso Iraque), os atrasos (não apenas tecnológicos mas também políticos) na pesquisa para energias alternativas, a poluição (que existe, efeito estufa ou não). Ha inteiros Países com milhões de pessoas que hoje sofrem as consequências directas da extracção do petróleo na própria terra.

Tudo isso deveria ser parte desta nova ideia de Pico Petrolífero Ambiental, ponto que não apenas foi atingido como também ultrapassados há muito. Muito mais sério dum Peak Oil com funções meramente políticas.


Ipse dixit.

Relacionados:
O petróleo inesgotável
Fracking
Fracking: ao pormenor - Parte I
Fracking: ao pormenor - Parte II

Fontes: The Guardian, Cassandra´s Legacy

E o gás avança…

As últimas notícias da OPEP (a Organização dos Países Exportadores de Petróleo) parecem indicar um futuro instável e tumultuoso.

A crise financeira que abalou o mundo inteiro coloca em risco a estabilidade da inoxidável organização dos Países produtores de petróleo.

Será? Ah, pois é.
Relata o Financial Times:

Com a crise da dívida soberana dos europeus que piora e os medos crescentes em relação à economia global, as divisões profundas no seio da OPEP são susceptíveis de minar a capacidade da organização para perseguir o seu objectivo, ou seja, para gerir a oferta de petróleo e evitar violentas oscilações do preço.
Ohhhh...
E o Financial Times é muito claro quando define quais Países podem ser considerados "moderados" e quais "extremistas". Entre os primeiros (os moderados, os bons) temos a Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, a Nigéria, a Líbia (!), E entre os segundos (os extremistas, as "cabeças quentes") a Venezuela (óbvio), o Irão (normal) e...o Iraque.

O Iraque? Isso mesmo, a colónia privada dos Estados Unidos.
Em particular, estes os dois últimos parecem preocupar a organização: vozes nos bastidores falam duma aliança dentro da OPEP para estabelecer umas posições comuns.

Anos de guerra, milhões de mortos, milhares de milhões de Dólares, um País entregue ás empresas privadas, e tudo para quê? Para ter um Iraque no mesmo lado do Irão? Esta sim que é ingratidão. Já nem vale a pena atacar e invadir um País soberano, não tem gozo.

E no meio disso, eis um pensamento, ou melhor, uma heresia: e se a OPEP desaparecesse? A organização é  uma daquelas coisas assumidas como "naturais", que existia antes do nosso nascimento, pois sempre existiu, provavelmente já explorava os poços de petróleo pouco depois do Big Bang (quem forneceu a gasolina para a Arca de Noé?), por isso sempre vai existir. Ou não?

Na verdade, a omnisciente Wikipedia explica que a OPEP é muito mais recente:
é uma organização internacional criada em 1960 na Conferência de Bagdad que visa coordenar de maneira centralizada a política petrolífera dos países membros, assim como combater a queda no preço do produto, que antes de 1960 ocorria com frequência em parte devido à acção das sete irmãs.
De forma mais clara, antes da OPEP o mercado global era controlado por sete grandes empresas:
  • Royal Dutch Shell (actualmente conhecida como Shell)
  • Anglo-Persian Oil Company (APOC),. mais tarde BP Amoco e hoje simplesmente BP.
  • Standard Oil of New Jersey, actualmente, ExxonMobil.
  • Standard Oil of New York, mais tarde Mobil, hoje ExxonMobil.
  • Texaco, posteriormente fundida com a Chevron para formar a ChevronTexaco até 2005, hoje apenas Texaco.
  • Standard Oil of California (Socal), posteriormente Chevron, que incorporou a Gulf Oil e depois fundida com a Texaco.
  • Gulf Oil, absorvida pela Chevron, posteriormente ChevronTexaco, hoje apenas Texaco.
Após 1960, a hegemonia é quebrada e as companhias são obrigadas a negociar com alguns Países a exploração dos campos petrolíferos. Na prática, passou-se dum cartel formado por sete empresas para um cartel formado por sete empresas mais alguns Países produtores. Mas sempre cartel é.

Com o tempo, como vimos, as sete empresas tornaram-se quatro (Shell, BP, ExxonMobil e Texaco) e hoje partilham os lucros com alguns Países produtores: Arábia Saudita, Argélia, Angola, Emirados Árabes, Equador, Iraque, Irão, Kuwait, Qatar, Líbia, Nigéria, Venezuela.

E que aconteceria se a OPEP desaparecesse? Haveria uma certa confusão, sem dúvida: Países com explorações ainda estatais e Países com as explorações nas mãos dos privados. Por isso há quem prefigure amplas oscilações no preço do crude, um mercado altamente instável e até guerras.

Outros fazem ainda notar como um cartel funciona até quando houver um surplus de oferta: logo alcançada uma diminuição do produto, o cartel entra em crise e as forças centrifugas quebram a organização. Será este o destino da OPEP também? Segundo Colin Campbell, geólogo do petróleo, a resposta é sim.

Temos por isso que esperar guerras e devastações?
Na verdade guerras e devastações ligadas ao petróleo nunca pararam: a novidade seria uma eventual paz ligada ao crude.
E não podemos esquecer que o OPEP não representa todos os produtores de petróleo, pois há importantes exportadores que decidiram ficar de fora: Brasil, Canada, China, Estados Unidos, Cazaquistão, México, Noruega, Oman, Rússia.

Ao observar a tabela dos principais produtores mundiais de petróleo, reparamos que a maior parte do crude nem é produzido pelos Países do OPEP (dados OPEP de 2009):


Resumindo: com a diminuição das reservas petrolíferas dos Países historicamente produtores (mesmo que seja abiótico, o que ainda não foi demonstrado, precisará dum pouco de tempo para regenerar-se, não é?) o papel da OPEP parece destinado a diminuir com o tempo.
E o gás avança.

Veremos a extinção do OPEP? Isso sim que seria histórico...


Ipse dixit.

Fontes: Financial Times, Wikipedia, Petrolio, OPEP (ficheiro Pdf)

Petróleo do Brasil: China e Pré-sal

Dada a demanda voraz de energia, a China adicionou o Brasil entres os seus principal parceiros no âmbito petrolíferos, provocando uma rápida expansão dos seus negócios no País sul-americano.

Coisa que é vista por alguns como um factor de dinamismo e por outros como um risco para a futura auto-suficiência .

A China foi o grande investidor petrolífero do Brasil nos últimos três anos através de empresas quais a China Petrochemical Corporation (Sinopec) e a Sinochem Corporation (Sinochem), como afirmado pelo Adriano Pires.

Durante este período, investiu cerca de 15.000 milhões de Dólares, principalmente na compra de activos de empresas que já operam no Brasil nas áreas da exploração e da produção de petróleo, principalmente no fundo do mar, onde o País tem as maiores reservas.

Diz Pires, director do Centro Brasileiro de Infra-estrutura (CBIE):
É uma estratégia da China para garantir as reservas de petróleo para o próprio abastecimento, o mesmo acontece em outros Países latino-americanos como Argentina e Venezuela, e em outras regiões, como a  África.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportação informa que a China pretende aumentar em 60 por cento as reservas estratégica de petróleo, não importa donde o precioso líquido chegar.

No Brasil, a aposta começou em 2010 com a aquisição por parte da Sinochem de 40 por cento das acções da empresa norueguesa Statoil no campo de Peregrino, em Santos; uma operação de 3.100 milhões de Dólares.

No mesmo ano, a Sinopec investiu 7.100 milhões de Dólares para 40 por cento da subsidiária brasileira da multinacional espanhola Repsol.

Enquanto isso, no passado Março, adquiriu por 4800 milhões 30 por cento da Petrogal Brasil, a filial da empresa portuguesa que é responsável pela exploração e produção de petróleo da Galp Energia.

O capital chinês também está associado à Petrobras, controlada pelo Estado no Pará e no Maranhão, e à anglo-francesa Perenco, na zona de Espírito Santos.

Pires acrescenta que as empresas chinesas também estão interessadas ??em comprar acções da OGX, uma empresa de petróleo do bilionário brasileiro Eike Batista, que já tem negócios significativos com os chineses nos sectores da mineração e da siderurgia.

O director da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Económico, Tang Wei:
O Brasil é uma fonte deste recurso estratégico para a China, para o crescimento sustentável, mas também estamos muito interessados no mercado brasileiro.
Um interesse que, de acordo com Pires, tem a ver com a necessidade crescente de China para assegurar o consumo de combustível entre a sua crescente classe média.

O especialista lembra que o gigante asiático, com 13 milhões de barris por dia, agora é o segundo maior consumidor de petróleo depois dos Estados Unidos, que utiliza entre 18 e 20 milhões de barris por dia. Estima-se que em poucos anos, essa relação ficará invertida.

Dados da CBIE indicam que a China é o segundo maior importador de petróleo brasileiro, depois dos Estados Unidos, mas também aqui a tendência prevê uma troca das posições.

A Secretária do Comercio Exterior do Ministério de Desenvolvimento, Industria e Comercio do Brasil informa que as exportações de petróleo para a China aumentaram de 1,6 milhões de barris em 2001 para 50,6 milhões em 2011.

Mas a China vai ainda mais longe, e as expectativas estão agora concentradas nos recentes depósitos descobertos sob a camadas de sal do oceano Atlântico, mais de 7.000 quilómetros abaixo da superfície e perto da costa brasileira.

Os 55.000 milhões de barris previstos colocariam o Brasil no grupo dos grandes exportadores de petróleo.

Comenta Pires:
A China não tem experiência no âmbito da exploração offshore, pelo que deixa isso nas mãos da Petrobras e da Repsol
A estratégia de Pequim ficou evidente em 2009, quando o China Development Bank fechou um acordo com o então governo de Luiz Inácio Lula da Silva sobre um empréstimo de 10.000 milhões para a Petrobras em troca de exportações de petróleo para Sinopec; exportações originariamente de 150.000 barris por dia, depois aumentada até 200.000.

Enquanto isso, os empresários brasileiros vêem a actividade chinesa como positiva, porque move o mercado.

A China também ficou associada com empresas brasileiras nos sectores da refinação e da distribuição de combustível, da produção de equipamentos para a exploração do petróleo e da sua extracção.

Conclui Pires:
Não há riscos. O Brasil está interessado porque isso traz dinheiro. É um bom negócio
Em vez disso, o presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), Silvio Sinedino, teme que a necessidade insaciável da China leve a um rápido esgotamento dos recursos fósseis.

A AEPET, que defende um retorno ao monopólio da Petrobras, acredita que o Brasil não deve ser um exportador de petróleo, mas antes garantir a auto-suficiência e que a exportação "deve ser marginal":
Países como a China e os EUA têm muita necessidade de petróleo. Com uma demanda crescente assim, as nossas reservas pré-sal ficariam esgotadas em 15 ou 20 anos quando poderiam manter-se ao longo de  30 anos pelo menos.
Não podemos transformar-nos num exportador de petróleo para o Oriente. Devemos usar o que precisamos e vender tanto quanto possível, defender o nosso património nacional.
A este respeito, Sinedino AEPET vê "com simpatia" a expropriação da Repsol YPF por parte do governo argentino:
O petróleo não é uma mercadoria qualquer. Tem um elevado valor geopolítico.
O interesse da China para o Brasil se reflecte em outros sectores-chave também: soja e ferro, por exemplo. Actualmente é maior parceiro comercial do Brasil.


Fonte: Rebelion

Fracking: ao pormenor – Parte I

Vamos falar de: petróleo.
Porquê? Porque sim.

Mais: vamos aprofundar o discurso do fracking.
Porquê? Porque é importante.

Acerca do fracking já é possível ler este artigo. Mas vamos além.

Porque apesar de não serem muitas as empresas com a tecnologia "de ponta" para utilizar a tal técnica, a verdade é que a prática se encontra em franca expansão: nascida nos Estados Unidos, a "fracturação hidráulica" (este o sentido do termo fracking) já é utilizada em outros Países.

Quais? Difícil ter uma lista exaustiva.
Wikipedia reporta os seguintes Países:
Austrália
Bulgária
Canada
China
França (até 2011)
Irlanda
Nova Zelândia
Polónia
Sul África (actualmente em moratória)
Reino Unido
Estados Unidos

Mas a lista encontra-se desactualizada e não são reportados os Países que entendem viabilizar o fracking, como é o caso da Italia, por exemplo, e outros Países também.

Abiótico ou não, o petróleo nos reservatórios naturais está em queda, pois a procura não pára (pelo contrário: pensem na China, por exemplo); as empresas petrolíferas são obrigadas a explorações cada vez mais arriscadas para manter os actuais níveis de produção. E aqui entra em cena o fracking, utilizado também para a extracção de gás.

Os pormenores podem ser encontrados no já citado artigo, aqui vamos só com um breve resumo.

O Leitor entra num supermercado, aproxima-se dos refrigerantes e descobre que o seu sabor favorito (leite e cebola frita) fica na base dum enorme monte de latas. Então o Leitor faz um buraco no topo do monte, introduz uma mangueira e envia água de alta pressão em direcção à base: a pressão libertará o rico refrigerante que fica na base, com grande satisfação do Leitor.

Obviamente o director da loja não fica nada satisfeito ("É louco ou quê?), mas o Leitor não perde a calma e explica ("Fracking, meu amigo, só fracking. A propósito: onde guardam as palhinhas?").

Este é mais ou menos o que se passa com as companhias petrolíferas.
Diferenças:
  • na realidade o fracking não consegue extrair todo o petróleo, só 20% do que está presente;
  • uma vez acabada a extracção, o espaço deixado vazio tem de ser enchido com materiais (areia, cascalho...).
Como é possível constatar, o fracking num supermercado é muito mais vantajoso em termos de resultados.

Agora, falando a sério: a pesquisadora prof. Maria Rita D’Orsogna disponibiliza no site dela muito material acerca do fracking. Material que será utilizado neste artigo para explicar porque o fracking é uma técnica negativa e perigosa.

Os problemas do fracking.

A fracturação hidráulica apresenta vários problemas. Alguns são evidentes, outros menos.
Nos media grande destaque têm merecido os terremotos que parecem estar associados ao fracking; mas há mais do que isso. Vamos ver quais estes problemas.

Fracking e terremotos

As companhias petrolíferas argumentam que não há prova cientifica que demonstre uma conexão entre fracking e terremotos. Provavelmente nunca será obtida tal prova, como poderia?
O fracking altera a composição e a distribuição dos materiais no solo: os efeitos destas mudanças não são imediatos, pois podem apresentar-se após horas, dias, semanas ou meses após a abertura dum novo poço.

Mesmo assim há alguns dados que não podem ser ignorados.
O caso clássico é aquele do Estado americano do Arkansas. Longe de qualquer zona sísmica, o Arkansas tinha um histórico de 0 (zero) terremotos no início do séc. XIX; em 2010 os terremotos foram mais de 600 por ano. E a situação piora com o passar do tempo.

Desde Setembro de 2010 até Março de 2011 houve 750 sismos com intensidade entre 2 e 4 graus da escala Richter; na cidade de Greenbier, perto da capital Little Rock, em 28 de Fevereiro de 2011 tiveram 8 terremotos em 4 horas.

Resultado: medo, rachaduras nas paredes e tectos das casa, dúvidas. 

Única certeza: Greenbier fica no meio de "gasland", uma imensa região alvo de fracking para a extracção de gás. 

Claro, não há prova científica: mas como relatado por Steve Horton, sismólogo da universidade de Memphis, 90% dos terremotos desde 2009 até hoje aconteceram num raio de 6 quilómetros dos poços de gás. Simples azar?

Fracking e água

Injectar substâncias químicas no subsolo pode poluir a água naturalmente presente no mesmo subsolo?
Parece uma pergunta idiota, mas as companhias petrolíferas negavam isso e foi preciso um estudo para demonstrar esta afirmação.

Na reportagem Gasland, de Josh Fox, há os casos de pessoas normais que abrem as torneiras de casa e, em vez da água, encontram bolas de fogo que invadem a cozinha.

Agora um artigo do PNAS (Proceedings of National Academy of Sciences) confirma. Os pesquisadores da Duke University estabeleceram que os níveis de metano, etano, propano, butano e outros hidrocarbonetos aumentam de forma preocupante nas reservas naturais de água nas proximidades de poços de fracturação hidráulica. Uma situação que abrange 81% das águas subterrâneas nas zonas do fracking.

Não só: mas o gás encontrado nas águas é o mesmo extraído pelas companhias petrolíferas. O que acontece é que o gás migra nas fendas naturais do solo.

Desta forma é possível também explicar as três pessoas mortas em Colorado em 2004 (altos níveis de
contaminação da água) e o gado que morreu ou ficou cego por causa do arsénico engolido. Além de hidrocarbonetos e arsénico, no subsolo migram (e poluem a água) também petróleo, vanádio, cobre e outros metais pesados.

Mesmo perante as evidências, as companhias petrolíferas insistem: os poços são feitos bem, são impermeabilizados, é a pesquisa que foi feita mal.


Acaba aqui a primeira parte do artigo dedicado ao fracking.
Amanhã a segunda e última parte. Pois falta falar da radioactividade, das aves mortas...


Ipse dixit.

Fonte: Dorsogna

Cristina e o petróleo da Argentina

Cristina Kirchner, Presidente da Argentina, na manhã do dia 16 de Abril anunciou a expropriação e a nacionalização da empresa "Yacimientos Petrolíferos Fiscales" (YPF), cujo gestão pertencia à Repsol Ibérica, propriedade do Governo espanhol e gerida por uma companhia europeia financiada pelo BCE através da participação de Banco Santander, Banco Bilbao, Unicredit, Sanpaolo Intesa, Popolare Banca di Milano, Société Générale, Credit Agricole, Eni e Deutsche Bank.

Axel Kicillov, vice-ministro da economia, é a pessoa designada para gerir a transferência das acções, das quais 51% vão para o Banco de la Nación e 49% vão para as regiões nos quais se encontram os poços de petróleo. Os Espanhóis ficarão com uma indemnização, cujo valor ainda não é conhecido.

Julio de Vido, ministro do Planeamento e Desenvolvimento Económico e Social, disse:
Por quinhentos anos, os Europeus, primeiro com os conquistadores, em seguida, com os bancos italianos, depois com o exército britânico, e finalmente com a finança especulativa gerida pelo BCE e Wall Street, derrubaram o povo da Argentina dos seus recursos naturais, ouro, prata, açúcar, petróleo, limão, água, soja, couro, para construir a sua riqueza exagerada numa míope perspectiva de escravidão, tanto que a Europa afunda esmagada numa crise que não tem soluções.
É hora de que as nações voltem com a soberania nacional, dando ao povo a propriedade do dos produtos do território nacional. O Estado assume a responsabilidade e gere os recursos para serem compartilhados como um bem comum e lança um plano de grande investimento para o trabalho de construção, emprego e recuperação.
Na conclusão do discurso no qual a Kirchner anunciava a "argentização", lembrou o seguinte:
a Argentina é o único por agora, mas espero seja apenas o primeiro de uma longa lista de Países no mundo que não compram da China porque nós produzimos em casa. No nosso território não há nenhum artefacto com escrito "Made in China": somos humanamente, politicamente e culturalmente contra a escravidão. Somos a favor da auto-determinação dos povos e para a restauração da soberania nacional.
Então? Que aconteceu? Aconteceu uma coisa positiva em moldes ridículos.
Explico.

A coisa positiva é que a Argentina passa a gerir a produção do próprio petróleo. Isso deveria acontecer não apenas na Argentina mas em todos os Países, não apenas com o petróleo mas com todos os recursos naturais.

Neste ponto acho não podem existir dúvidas e as críticas da Europa não têm fundamento. Repito: cada País tem que poder gerir os recursos naturais do próprio território.

Todavia é preciso lembrar alguns pormenores.
Tinha sido o falecido marido da Kirchner o entusiasta da venda de YPF, em 1993. E a simpática Cristina deveria saber donde vinham os Dólares que o marido "ganhava" enquanto governador de província.

Depois é bom lembrar que a YPF não será realmente nacionalizada, continuará a ser uma sociedade de acções. A dúvida é: será fartura para o povo ou o povo ficará com as migalhas, com grande felicidade dos caciques da burguesia local?

Outro ponto: a Argentina não é o Texas, não é suficiente uma pá para extrair o petróleo. A exploração de Vaca Muerta, por exemplo, fortes investimentos (isso é, muito dinheiro, pois são recursos "não convencionais") e sobretudo uma tecnologia de ponta que a Argentina hoje não tem. E encontrar um investidor estrangeiro, após este melodrama, não será simples.

Pergunta: mas porque mesmo agora? Segundo alguns observadores europeus, a Kirchner quis desfrutar o momento de fragilidade da União Europeia, cuja resposta será sem dúvida fraca. Não concordo com esta ideia: a verdade é que se a Kirchner tivesse esperado o fim da crise europeia, a nacionalização teria sido póstuma. Neste aspecto, hoje ou o próximo ano teria sido a mesma coisa.

Pode haver uma outra resposta.
A nacionalização parte da ideia de que a Respol não avançou com adequados investimentos na Argentina. O que é correcto. Mas porquê? Qual companhia petrolífera não desfruta um poço de petróleo?

Resposta: uma companhia petrolífera não desfruta o petróleo disponível se o investimento não compensa. Na verdade, ao longo dos últimos 3 anos as exportações petrolíferas da Argentina caíram de forma drástica, enquanto as importações não conseguem cobrir a procura: em algumas províncias há escassez de combustível.

As reservas petrolíferas naturais do País estão prestes à esgotar-se, ao ponto que a Repsol abriu negociações para a venda da YPF aos Chineses: isso para concentrar os esforços no Brasil onde, em colaboração com a chinesa Sinopec, entende explorar as reservas ao largo da costa.Será este um investimento enorme e perigoso, mas com muitos mais lucros. Porque a Argentina está a ficar sem petróleo.

As tão publicitadas explorações de Vaca Muerta, como antecipado, requerem um processo de extracção perigoso, muito caro e muito poluidor. o fracking, uma técnica utilizada por enquanto nos Estados Unidos e ao centro de enormes criticas por causa das consequências no plano ambiental. Mas até o fracking, apesar da poluição das reservas naturais de água e dos pequenos terremotos provocados, não consegue obter mais do que 20% do petróleo presente.

Vaca Muerta é uma reserva natural de petróleo enorme, mas a Repsol já tinha deixado claro, com uma carta ao governo argentino, que sozinha não teria avançado, não sem um aliado que participasse nas vertentes económicas e tecnológicas.

Conseguirá a Argentina extrair aquele petróleo sozinha? Não, será precisa uma aliança e os candidatos são poucos, pois não é esta uma tecnologia que possa ser encontrada com tanta facilidade. E quem arriscará agora um investimento gerido pela Kirchner? Uma empresa europeia não, sem dúvida: sobram Chineses e Estados Unidos...

Repito: o princípio é correcto, os recursos naturais duma região devem pertencer aos habitantes daquela região. E seria bom observar o mesmo tipo de acontecimentos em todos os outros Países da América do Sul e não só.
Todavia há alturas na qual é bom usar o martelo, outras nas quais é melhor usar ferramentas um pouco mais "delicadas" para obter o mesmo efeito. A presidente Kirchner escolheu o martelo, a esperança é que tenha uma boa pontaria e que tenha feito bem as contas.

Uma última questão, que tornará enervados muitos Leitores.
Diz o Ministro argentino de Vido: "Por quinhentos anos, os Europeus [...] derrubaram o povo da Argentina".

Esta é uma observação que poderia aceitar sem problemas se vinda dum índio. Agora, aqui estamos a falar de pessoas que têm como apelido "de Vido "Kirchner", "Sanz", "Perón", "López", "Alonso"...São os descendentes dos que invadiram aquelas terras, eliminaram as tribos dos locais, tomaram posse dos recursos deles.

Muito são emigrantes filhos de famílias europeias que chegaram na América do Sul no princípio do séc. XIX, entraram em terras que não eram deles, começaram a explorar um território que ao longo de milhares de anos tinha pertencido a outros.

A Kirchner pertence a uma das tribos originais? Não parece. Por isso: quem se sentir sem culpa, atire a primeira pedra.


Ipse dixit.

Nos moldes da legalidade

Um Leitor Anónimo ("Anónimo" pois não pedi a autorização para publicar o nome) pergunta:
Quando se quer deitar mão a poços de petróleo estrangeiros, envia-se o exército com uma desculpa. Mas que eu saiba, não é o exército que aponta as armas aos trabalhadores e diz "agora trabalhem só para nós"...
De que forma é que os poços passam a ficar nas mãos do invasor? Porque há toda uma vertente diplomática, e argumentos de protecção do poços...
Pois, é verdade: nunca vimos imagens na televisão com tanques americanos que defendem os poços de petróleo. Então como é que as explorações passam nas mãos dos invasores, ops, queria dizer: dos ajudantes humanitários?

Na verdade o mecanismo não é difícil. No caso do Iraque e da Líbia, tais explorações são: 1. concentradas nas mãos dos governos locais 2. exploradas por um restrito número de privados sob estreito controle do governo local.

Portanto: uma vez acabado o governo local e substituído com uma junta de salvação/governo provisório, abre-se a corrida para as empresas privadas estrangeiras, que tomam conta dos poços.

"Abre-se"? Na verdade é o contrário: fecha-se. As companhias petrolíferas estrangeiras conhecem muito bem quantos e quais os poços do País governado pelas Forças do Mal e mesmo antes da primeira bala ter sido disparada já os poços têm virtualmente novos donos: é só esperar que a ajuda humanitária acabe com a resistência para que as novas companhias possam iniciar as operações de extracção.

Como exemplo, eis o que aconteceu com o petróleo do Iraque.

A indústria petrolífera do Iraque tinha sido completamente nacionalizada em 1972. O governo na década de 1990, sob a presidência de Saddam Hussein, concedeu acordos de extracção a empresas russas e chinesas, empresas que, obviamente, partilhavam o lucro com o Estado do Iraque.

Uma vez "libertado"o País, a administração Bush contratou a empresa de consultoria BearingPoint
para escrever uma nova lei que regulamentasse o sector, em 2004. Assim a lei, escrita por uma empresa ocidental, foi aprovada em 2007 pelo gabinete de Bagdad. A lei não foi muito bem recebida pelo Iraquianos, 63% dos quais achavam melhor que o petróleo do Iraque fosse produzido por empresas estatais iraquianas em vez de empresas estrangeiras. Ingratos.

Segundo a nova lei (que ainda não foi totalmente viabilizada pelo parlamento iraquiano, o petróleo do País garantiria lucros para as companhias petrolíferas estrangeiras, sendo que as várias províncias teriam ampla liberdade para escolher as empresas de exploração.

A Companhia Nacional de Petróleo do Iraque teria o controle operacional exclusivo de apenas 17 dos 80 campos de petróleo conhecidos no País, que é o segundo maior produtor mundial de "ouro negro", logo após a Arábia Saudita..

Esta lei é uma anomalia: normalmente, um País não deixa que dois terços dos próprios recursos petrolíferos acabem sob o controle estrangeiro.

Então fica a dúvida: se esta é uma lei ainda não operativa, quem explora o petróleo iraquiano agora?
Resposta: sempre as companhias ocidentais.

Actualmente as explorações estão nas mãos de poucas empresas privadas ocidentais, ao abrigo duma disposição conhecida como no-bid contract ou "contracto de fonte única": é esta uma medida de emergência com a qual é assumido o facto de existir apenas um fornecedor capaz de prestar um determinado serviço. É um contracto geralmente utilizado por um governo que negoceia rapidamente com uma empresa, evitando os tempos e a burocracia dos concursos públicos.

É o mesmo tipo de contracto com os quais o governo dos Estados Unidos "convidou" as empresas privadas Blackwater e Halliburton na mesma guerra do Iraque: são também as empresas que o Nobel da Paz Barack Obama contratou para trabalhar no Afeganistão ao lado da CIA..

No Iraque, o no-bid contract é utilizado com as seguintes companhias, actualmente as únicas que operam em território iraquiano: Exxon Mobil, Shell, Total e BP, por vezes parceiros da Companhia Nacional do Petróleo do Iraque.

Portanto: tudo nos moldes da legalidade. A legalidade dos invasores, ehm, libertadores, claro.

Mas pensar que este "libertadores" utilizem as forças armadas para controlar as explorações não está errado: o primeiro ataque durante a guerra do Iraque foi conduzido por um commando da marinha dos EUA contra uma plataforma petrolífera, no meio do mar, no Golfo Pérsico.

New York Times:
Os Navy Seals tomaram o controle de dois terminais petrolíferos. O ataque aconteceu ao amanhecer e acabou com a derrota das milícias iraquianas. 
De facto houve duas guerras no Iraque: um apara abater o regime, outra para ocupar as explorações de petróleo. E se a primeira foi amplamente relatada por parte dos media ocidentais, acerca da segunda foi apenas silêncio. Só de vez em quando chegavam relatos de soldados mortos perto das instalações por causa de ataques, muitas vezes suicidas (como no caso dos três soldados americanos mortos no ataque contra a plataforma Khor al-Amaya). 

Além dos poços há também os oleodutos, as refinarias, os portos. Instalações que, uma vez conquistadas, têm que ser defendidas. E não apenas no Iraque. 

Tropas americanas são presentes perto das zonas petrolíferas estratégicas na Colômbia, Arábia Saudita, Azerbaijão, Kazakistan, Senegal, Ghana, Mali, Uganda, Kenia... 

Na Colômbia, por exemplo, ao longo dos anos a guerrilha sabotou os oleodutos. Forças americanas foram activamente empenhadas na defesa dum dos mais importantes, o oleoduto Caño-Limón, que liga as explorações da província de Arauca com a costa das Caraíbas: 770 quilómetros que têm de ser continuamente vigiados. 

Voltando ao Médio Oriente: um estudo de Roger Stern, geo-economista da Universidade de Princerton, em Abril de 2010 revelou que para manter a V Frota no Golfo Pérsico (e assegurar assim o transito dos petroleiros pelo Estreito de Hormuz) o exército dos Estados Unidos gastou 7.3 biliões de Dólares em trinta anos.


Ipse dixit.